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Ficha técnica e CMV: como saber quanto cada prato realmente custa

15/09/2026 10 min de leitura
Ficha técnica e CMV: como saber quanto cada prato realmente custa

Pergunte ao dono de um delivery quanto custa fazer o prato mais vendido da casa e a resposta quase sempre vem com a palavra mais ou menos. Pergunte quanto sobra depois da embalagem, da taxa do cartão e da comissão, e a resposta costuma acabar em silêncio.

Não é descuido. É que o custo de um prato não está em lugar nenhum: ele está espalhado entre a nota do açougue, o saco de batata, o pote de molho que rende trinta porções, a caixa de embalagem e a taxa que o meio de pagamento cobra. Ninguém enxerga esse número olhando o movimento.

A ficha técnica é o documento que junta tudo isso em um valor por porção. Ela não é burocracia de restaurante grande. É o instrumento que separa o cardápio que dá lucro do cardápio que parece dar.

O que é a ficha técnica, na prática

A ficha técnica de um item é a receita dele escrita em gramas e em reais. Ela lista cada ingrediente na quantidade exata que vai no prato, com o custo daquela quantidade, e chega a um total.

Um exemplo simples, de um hambúrguer:

  • Pão brioche: 1 unidade, comprado a R$ 2,10.
  • Blend 150 g: do quilo a R$ 38,00, sai R$ 5,70.
  • Queijo cheddar: 2 fatias, R$ 1,40.
  • Bacon 20 g: R$ 1,10.
  • Molho da casa 30 g: a receita rende 1,2 kg e custa R$ 24,00, então a porção sai R$ 0,60.
  • Alface e tomate: R$ 0,45.

Soma dos ingredientes: R$ 11,35. É esse número que a maioria das operações nunca calculou, e é só o começo, porque no delivery ele ainda não está completo.

Os três custos que a ficha técnica esquece

Ficha técnica de salão para no ingrediente. No delivery, três itens entram no custo do prato e precisam estar ali dentro, porque eles existem por causa daquele pedido específico.

  1. Embalagem. Caixa, pote, saco, lacre, talher, guardanapo e sacola. Em item de ticket baixo, a embalagem chega a comer mais que o queijo.
  2. Perda e rendimento. O quilo de carne não vira um quilo de porção. A alface perde folha, o tomate perde ponta, a fritura absorve óleo. Se a ficha usa o peso comprado em vez do peso aproveitado, ela mente para menos.
  3. Cortesia e erro. Sachê extra, refrigerante de cortesia, pedido refeito por engano da cozinha. É custo real e recorrente, e entra como percentual em cima do total.

No exemplo acima, some R$ 1,80 de embalagem e considere 6% de perda e quebra. O custo do hambúrguer sai de R$ 11,35 para cerca de R$ 13,90. Mudou 22%, e esse é exatamente o tamanho do erro de quem precifica pelo olho.

Do custo do prato ao CMV da operação

CMV é o custo da mercadoria vendida: quanto do seu faturamento foi embora em insumo. A conta do mês é direta.

Estoque inicial, mais as compras do período, menos o estoque final, dividido pelo faturamento do período. O resultado é um percentual.

Na prática, delivery de comida costuma trabalhar entre 28% e 35% de CMV, variando muito por categoria: pizza e massa tendem a ficar abaixo, hambúrguer artesanal e carne tendem a ficar acima, açaí e bebida ficam bem abaixo. O número isolado importa menos do que duas comparações.

  • O CMV real contra o CMV teórico. O teórico sai da soma das fichas técnicas multiplicadas pelo que foi vendido. Se o real está bem acima do teórico, o problema não é preço, é operação: porcionamento sem padrão, desperdício, perda de estoque.
  • O CMV deste mês contra o dos anteriores. É o alarme de aumento de insumo que passou despercebido.

Um restaurante que descobre CMV teórico de 31% e real de 38% acabou de encontrar sete pontos de faturamento sumindo dentro da própria cozinha. Nenhum aumento de preço resolve isso, porque o furo não está no preço.

O preço que sustenta a margem

Com o custo por prato na mão, a precificação deixa de ser opinião. O caminho mais usado é o do índice de marcação: você define quanto o CMV pode representar do preço de venda e divide.

Se a meta é 30% de CMV, o multiplicador é 3,33. O hambúrguer de R$ 13,90 de custo pede R$ 46,30 de preço de venda. Se a meta é 33%, o multiplicador cai para 3,03 e o preço fica em R$ 42,10.

Esse número é ponto de partida, não sentença. Ele precisa passar por três filtros antes de ir para o cardápio:

  1. O mercado aceita? Preço muito acima do que a região pratica derruba volume, e volume sustenta a cozinha.
  2. Onde o item entra no cardápio? Item de entrada pode ter margem menor de propósito, para puxar o cliente novo.
  3. O que sobra depois das taxas? Este é o filtro que muda tudo no delivery, e é o próximo tópico.

A comissão entra na conta, e ela é enorme

O preço calculado acima vale para venda em canal próprio. No marketplace, ele não vale, porque entre o valor da venda e o seu caixa existe uma comissão que costuma ficar entre 12% e 30% do pedido, mais a taxa de pagamento.

Volte ao hambúrguer, vendido a R$ 46,30:

  • No canal próprio: menos o custo de R$ 13,90 e menos cerca de 2,5% de taxa de pagamento, sobram aproximadamente R$ 31,20 para pagar aluguel, equipe, energia e lucro.
  • No marketplace a 23%: a comissão leva R$ 10,65. Sobram aproximadamente R$ 21,75.

O mesmo prato, a mesma cozinha, R$ 9,45 de diferença por pedido. Em cem pedidos por mês nesse item, são R$ 945. A conta detalhada por faixa de comissão está em quanto custa a comissão do marketplace.

Daí sai a decisão que mais mexe no resultado do mês: não é subir o preço de todo mundo, é mudar de onde o pedido entra. Cada pedido que migra do marketplace para o canal próprio vale, em margem, quase metade a mais. O cliente é seu, não do marketplace.

A curva ABC do cardápio, que a ficha técnica destrava

Com custo e margem de cada item, o cardápio pode ser separado em quatro grupos, cruzando popularidade com margem. É a análise que mais rende com o menor esforço.

  • Vende muito e tem margem boa. É a estrela. Deve estar no topo do cardápio, com foto, e nunca sair de promoção nenhuma.
  • Vende muito e tem margem ruim. É o item que dá trabalho e não paga. Aqui cabe revisar a ficha, renegociar o insumo, ajustar a porção ou subir o preço com cuidado, porque o volume protege.
  • Vende pouco e tem margem boa. É o item esquecido. Mudar a posição no cardápio, melhorar a foto e a descrição costuma resolver, e não custa nada.
  • Vende pouco e tem margem ruim. Sai do cardápio. Ele ocupa espaço, complica o estoque e ainda segura ingrediente parado.

Cardápio enxuto tem outro efeito que aparece na cozinha antes de aparecer na planilha: menos item é menos insumo parado, menos erro no pico e menos tempo de preparo. O reflexo disso no atendimento está em horário de pico no delivery.

Combo não é desconto, é margem montada

Combo mal feito é desconto com nome bonito. Combo bem feito usa a diferença de margem entre categorias a seu favor.

Bebida e sobremesa têm CMV baixo, muitas vezes abaixo de 25%. Prato principal tem CMV alto. Juntar os dois em um combo com desconto pequeno no total aumenta o ticket e, ao mesmo tempo, abaixa o CMV médio do pedido, porque entrou no carrinho um item barato de produzir.

A regra de conferência é simples: monte a ficha técnica do combo inteiro, como se fosse um item só, e compare o percentual dele com o do prato vendido sozinho. Se o CMV do combo for menor, o combo está construído. Se for maior, você está pagando para vender mais.

Como manter isso vivo sem virar um trabalho de escritório

Ficha técnica desatualizada é pior que ficha nenhuma, porque dá confiança falsa. Mas manter não exige muito, desde que a rotina seja pequena e fixa.

  1. Comece pelos dez itens mais vendidos. Eles costumam ser 70% do faturamento. O resto pode esperar.
  2. Pese de verdade uma vez. A ficha só é útil se o número vier da balança, não da memória.
  3. Revise o custo dos insumos por mês, ou sempre que um item subir de forma visível. Carne, queijo, óleo e embalagem são os que mais se mexem.
  4. Recalcule o CMV fechando o mês, com contagem de estoque no mesmo dia do mês anterior.
  5. Compare teórico e real. Distância grande aponta para porcionamento, não para preço.

Quem já acompanha os dados de venda pelo próprio painel tem meio caminho andado, porque a quantidade vendida por item é a metade da conta. O que fica de fora do painel do marketplace, e isso é relevante, é o cadastro do cliente: quem pediu, com que frequência e quanto gastou. Esse raciocínio está em quanto vale um cliente do delivery.

O que muda depois da primeira planilha

A experiência de quem faz esse exercício pela primeira vez é quase sempre a mesma: dois ou três itens do cardápio estavam dando prejuízo, e eram itens que a casa vendia com orgulho, porque vendiam bem.

O número não muda a cozinha, muda a decisão. Ele diz onde o preço pode subir sem perder cliente, qual item deve sair, onde o combo compensa e quanto exatamente custa cada pedido que entra por um canal que cobra comissão.

Precificar no olho funciona enquanto a margem é larga. Quando o insumo sobe, e ele sempre sobe, quem não tem ficha técnica descobre o problema no extrato, com três meses de atraso.

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Perguntas frequentes

É a receita escrita em quantidades exatas e custos, ingrediente por ingrediente, que chega ao custo real de uma porção. No delivery ela precisa incluir também embalagem, perda de rendimento e um percentual de cortesia e erro.

Estoque inicial mais compras do período, menos estoque final, dividido pelo faturamento do período. O resultado é o percentual do faturamento que foi consumido em mercadoria.

A faixa mais comum fica entre 28% e 35%, variando bastante por categoria. Mais importante que o número absoluto é comparar o CMV real com o teórico das fichas técnicas e acompanhar a variação mês a mês.

Divida o custo total do prato pelo percentual de CMV que você quer atingir. Custo de R$ 13,90 com meta de 30% resulta em R$ 46,30. Depois ajuste pelo que o mercado aceita e pelo que sobra após as taxas do canal.

Não na ficha do prato, mas obrigatoriamente na análise de margem por canal. O mesmo item vendido no canal próprio e no marketplace deixa valores muito diferentes no caixa, e a decisão de preço precisa considerar isso.

Significa que o problema está na operação, não no preço: porcionamento sem padrão, desperdício, perda de estoque, erro de pedido ou cortesia acima do previsto. Aumentar preço não corrige esse tipo de furo.

Vale quando inclui itens de CMV baixo, como bebida e sobremesa, junto ao prato principal. Monte a ficha técnica do combo inteiro e compare o percentual com o do prato vendido sozinho: se cair, o combo está bem construído.

Pelos dez mais vendidos, que costumam concentrar a maior parte do faturamento. Feito isso, a maior parte do resultado já está sob controle e os demais itens podem ser mapeados aos poucos.

Leitura boa vira resultado quando sai do papel.

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